terça-feira, julho 06, 2010

Quadradinho rosa

Não me olha assim.
Por que você me olha assim todos os dias pela manhã, quando eu meto pra dentro esse quadradinho rosa?
Pra mim, ele é um antidepressivo que ajuda a controlar os meus impulsos de querer matar o meu semelhante. Tudo o que o meu semelhante tem é a diferença que ele tem de mim e que, definitivamente, não tolero.
Gosto mesmo é de conviver com a minha loucura, essa companheira fiel, solícita e sempre tão presente – que teima em ficar comigo mesmo quando não quero.
Ela me acompanha no banho todas as manhãs e faz aquele box quadradinho – que não é rosa – parecer pequeno demais, pra mim e pra ela. A minha loucura me faz imaginar que a água chuviscada que cai de cima pode ser aquela cachoeira morna, que não existe.
Ela me inspira a criar as coisas que eu realmente gostaria de escrever, enquanto o que na verdade escrevo é aquilo que o meu semelhante tem a dizer, o que não quer dizer nada, mas que me pagam pra escrever.
Há anos o meu semelhante vem com aquela trilogia óbvia “foco, visão de longo prazo e diversificação”. E tudo o que eu quero mesmo é diversificar o meu tema, desfocando a minha existência e colocando ele num prazo tão longo que o afasta de mim. Pra sempre. Mas o que o meu semelhante fala – e eu não quero ouvir, mas escrevo surdamente – mexe com a bolsa. A bolsa dele vive de oscilar, não por conta do quadradinho rosa igual ao que tomo pelas manhãs. O dele vem em forma de pelota, sai com força (e de graça) da terra, mas rende dinheiro à beça. Porque o quadradinho dele é aquilo que chamam minério de ferro, que se transforma em aço e depois em alguma outra coisa que ajudou a produzir o meu box apertado.
A minha bolsa também oscila pra cima e pra baixo, enquanto eu ando bancando pose sobre aqueles saltos que machucam os meus pés, mas fazem parecer que eu tenho dois quilos a menos. É nessa mesma bolsa sem dinheiro que eu guardo o meu quadradinho rosa. Na verdade, ele não é quadrado. É uma bolinha, mas é rosa, tão comum e impotente que chamam de melhoral infantil. Aquele que eu tomo todas as manhas pra evitar uma insuportável dor de cabeça. Um dor que me cega, mas não impede de acertar em cheio o meu alvo, matando o meu semelhante, que é tão diferente de mim.

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