Ele acha que eu estou doída. Mas o que eu estou mesmo é doida. Sou.
Sou doida e me dói quando ninguém entende a diferença entre doida e doída. A palavra é a mesma - concordo. Muda de sentido quando se escolhe o que pousa sobre o i. Me acompanhe.
Ele prefere o agudo. Eu, o pontinho. Que de ponto, mesmo, nada tem. O agudo que flana sobre o i que ele prefere, mas não escolho, indica a dor sublime que eu não senti e que, mesmo assim, perdi. Por ser doida. Não doída. Porque sofrer de uma dor que não se tem, mas se imagina, dói mais. Dói pensar que não fiquei com olhos vazios e que, quando se enchiam de algo, eram lágrimas que não chorei. Engoli.
Dói não poder catapultar sobre o sofrimento. Não poder buscar um afago na parede fiel que está ali, só pra me escorar. Ela sim sentiu dor, quando o prego furou a sua alma pra preencher o olhar de alguém com um quadro cheio nada, já que o olhar está vazio. É uma parede dolorida, mas que serve para estancar o prego e a dor que eu não sinto. Não sou doída. Sou doida.
O pontinho pendulante sobre o i que eu prefiro, e não deixo que ele escolha, me desescravisa da dor que ele pensa que eu sinto. Eu não sinto nada. Nem a dor do prego que machucou a parede, mas não me acertou. Doidos não sentem dor de ficar doídos. Doidos sentem dor quando perdem o eixo da doideira. Aí dói. Assim, de ficar doída. E convalescer agudamente – fazendo justiça ao que se escolhe para por sobre o i.
Como prefiro o pontinho ao agudo, não esmoreço. Mas endoido. Porque o que eu gosto mesmo é do que significa os pontinhos que eu posso alinhar livremente, assim ...
terça-feira, julho 27, 2010
quarta-feira, julho 07, 2010
FerrarYs
Eles são rápidos como uma Ferrari.
Fazem tudo ao mesmo tempo, mas dirigem carro mil. Afinal, são jovens. Muito jovens.
Ainda que não estejam nas pistas, a velocidade deles é sempre o máximo, tal como o máximo que o ponteiro de um desses esportivos italianos consegue alcançar. Estão conectados até onde não há conexão. Sem fios. Simplesmente porque eles não se enrolam com nada. Nem com ninguém.
Vivem em ação e sabem tudo o que a tecnologia vai inventar, ainda que nem mesmo os tecnólogos de plantão tenham planejado.
Não só sabem o que virá como já estão na fila de espera pra comprar esse novo troço, que além de interligar quase tudo, também pode trocar o pneu do seu Ferrari, que não fura e eles não têm. Ainda.
Esses jovens são filhos de pais que nasceram de pais que viveram a guerra. E, talvez por isso, ou exatamente por isso, superprotegeram os seus filhos, dando tudo de melhor e fermentando a auto-estima. Em muitos casos, ou na maioria deles, esses jovens são feras. Quase Ferraris. Cresceram prontos para questionar o inquestionável e viver o invivível - deliberadamente.
Começam a trabalhar cedo. Não exatamente naquele empreguinho que o pai se sujeitou há anos, engolindo sapo, mas se divertindo com revistas de carros esportivos como a Ferrari que ele nunca terá. Na vida. Já os filhos desses senhores complacentes e dedicados arrumam, de cara, um emprego melhor. Não se sujeitam às tarefas subalternas de início de carreira, lutam (e conseguem) salários ambiciosos. Nem que para isso tenham que mudar de emprego trocentas vezes, o que, na prática, ajuda a aposentar precocemente aquele carro. Digo, mil.
A relação da moçada jovem com a vida é outra. Diferentemente da assustadora subserviência dos pais, eles não se assustam com nada. Não só falam como escrevem divinamente em inglês – não raro, até melhor do português que, na pressa eletrônica, já reinventaram. Kkkkkkkk, com menos sortimento de letras, é o ahahahahaha de outros tempos. Além de abreviar tudo, trocam longas palavras da língua de Camões por sinônimos mais econômicos – em inglês, claro. Reduzem tudo com toda a sorte de carinhas criativamente produzidas com ponto, vírgulas e colchetes. Colchetes? É eu sou antiga ; -)
Essa geração rapidinha, nervosinha e sem temores fez do Google (que ela tabém criou) um verbo que se conjuga até mesmo no pretérito mais que perfeito. E das redes sociais o diário de uma vida escancaradamente conectada. Essa geraçao ficou conhecida com geraçao Y, porque sucedeu a geração Z. Letra que, cá entre nós, vem depois Y. Vai entender.
Fazem tudo ao mesmo tempo, mas dirigem carro mil. Afinal, são jovens. Muito jovens.
Ainda que não estejam nas pistas, a velocidade deles é sempre o máximo, tal como o máximo que o ponteiro de um desses esportivos italianos consegue alcançar. Estão conectados até onde não há conexão. Sem fios. Simplesmente porque eles não se enrolam com nada. Nem com ninguém.
Vivem em ação e sabem tudo o que a tecnologia vai inventar, ainda que nem mesmo os tecnólogos de plantão tenham planejado.
Não só sabem o que virá como já estão na fila de espera pra comprar esse novo troço, que além de interligar quase tudo, também pode trocar o pneu do seu Ferrari, que não fura e eles não têm. Ainda.
Esses jovens são filhos de pais que nasceram de pais que viveram a guerra. E, talvez por isso, ou exatamente por isso, superprotegeram os seus filhos, dando tudo de melhor e fermentando a auto-estima. Em muitos casos, ou na maioria deles, esses jovens são feras. Quase Ferraris. Cresceram prontos para questionar o inquestionável e viver o invivível - deliberadamente.
Começam a trabalhar cedo. Não exatamente naquele empreguinho que o pai se sujeitou há anos, engolindo sapo, mas se divertindo com revistas de carros esportivos como a Ferrari que ele nunca terá. Na vida. Já os filhos desses senhores complacentes e dedicados arrumam, de cara, um emprego melhor. Não se sujeitam às tarefas subalternas de início de carreira, lutam (e conseguem) salários ambiciosos. Nem que para isso tenham que mudar de emprego trocentas vezes, o que, na prática, ajuda a aposentar precocemente aquele carro. Digo, mil.
A relação da moçada jovem com a vida é outra. Diferentemente da assustadora subserviência dos pais, eles não se assustam com nada. Não só falam como escrevem divinamente em inglês – não raro, até melhor do português que, na pressa eletrônica, já reinventaram. Kkkkkkkk, com menos sortimento de letras, é o ahahahahaha de outros tempos. Além de abreviar tudo, trocam longas palavras da língua de Camões por sinônimos mais econômicos – em inglês, claro. Reduzem tudo com toda a sorte de carinhas criativamente produzidas com ponto, vírgulas e colchetes. Colchetes? É eu sou antiga ; -)
Essa geração rapidinha, nervosinha e sem temores fez do Google (que ela tabém criou) um verbo que se conjuga até mesmo no pretérito mais que perfeito. E das redes sociais o diário de uma vida escancaradamente conectada. Essa geraçao ficou conhecida com geraçao Y, porque sucedeu a geração Z. Letra que, cá entre nós, vem depois Y. Vai entender.
terça-feira, julho 06, 2010
Quadradinho rosa
Não me olha assim.
Por que você me olha assim todos os dias pela manhã, quando eu meto pra dentro esse quadradinho rosa?
Pra mim, ele é um antidepressivo que ajuda a controlar os meus impulsos de querer matar o meu semelhante. Tudo o que o meu semelhante tem é a diferença que ele tem de mim e que, definitivamente, não tolero.
Gosto mesmo é de conviver com a minha loucura, essa companheira fiel, solícita e sempre tão presente – que teima em ficar comigo mesmo quando não quero.
Ela me acompanha no banho todas as manhãs e faz aquele box quadradinho – que não é rosa – parecer pequeno demais, pra mim e pra ela. A minha loucura me faz imaginar que a água chuviscada que cai de cima pode ser aquela cachoeira morna, que não existe.
Ela me inspira a criar as coisas que eu realmente gostaria de escrever, enquanto o que na verdade escrevo é aquilo que o meu semelhante tem a dizer, o que não quer dizer nada, mas que me pagam pra escrever.
Há anos o meu semelhante vem com aquela trilogia óbvia “foco, visão de longo prazo e diversificação”. E tudo o que eu quero mesmo é diversificar o meu tema, desfocando a minha existência e colocando ele num prazo tão longo que o afasta de mim. Pra sempre. Mas o que o meu semelhante fala – e eu não quero ouvir, mas escrevo surdamente – mexe com a bolsa. A bolsa dele vive de oscilar, não por conta do quadradinho rosa igual ao que tomo pelas manhãs. O dele vem em forma de pelota, sai com força (e de graça) da terra, mas rende dinheiro à beça. Porque o quadradinho dele é aquilo que chamam minério de ferro, que se transforma em aço e depois em alguma outra coisa que ajudou a produzir o meu box apertado.
A minha bolsa também oscila pra cima e pra baixo, enquanto eu ando bancando pose sobre aqueles saltos que machucam os meus pés, mas fazem parecer que eu tenho dois quilos a menos. É nessa mesma bolsa sem dinheiro que eu guardo o meu quadradinho rosa. Na verdade, ele não é quadrado. É uma bolinha, mas é rosa, tão comum e impotente que chamam de melhoral infantil. Aquele que eu tomo todas as manhas pra evitar uma insuportável dor de cabeça. Um dor que me cega, mas não impede de acertar em cheio o meu alvo, matando o meu semelhante, que é tão diferente de mim.
Por que você me olha assim todos os dias pela manhã, quando eu meto pra dentro esse quadradinho rosa?
Pra mim, ele é um antidepressivo que ajuda a controlar os meus impulsos de querer matar o meu semelhante. Tudo o que o meu semelhante tem é a diferença que ele tem de mim e que, definitivamente, não tolero.
Gosto mesmo é de conviver com a minha loucura, essa companheira fiel, solícita e sempre tão presente – que teima em ficar comigo mesmo quando não quero.
Ela me acompanha no banho todas as manhãs e faz aquele box quadradinho – que não é rosa – parecer pequeno demais, pra mim e pra ela. A minha loucura me faz imaginar que a água chuviscada que cai de cima pode ser aquela cachoeira morna, que não existe.
Ela me inspira a criar as coisas que eu realmente gostaria de escrever, enquanto o que na verdade escrevo é aquilo que o meu semelhante tem a dizer, o que não quer dizer nada, mas que me pagam pra escrever.
Há anos o meu semelhante vem com aquela trilogia óbvia “foco, visão de longo prazo e diversificação”. E tudo o que eu quero mesmo é diversificar o meu tema, desfocando a minha existência e colocando ele num prazo tão longo que o afasta de mim. Pra sempre. Mas o que o meu semelhante fala – e eu não quero ouvir, mas escrevo surdamente – mexe com a bolsa. A bolsa dele vive de oscilar, não por conta do quadradinho rosa igual ao que tomo pelas manhãs. O dele vem em forma de pelota, sai com força (e de graça) da terra, mas rende dinheiro à beça. Porque o quadradinho dele é aquilo que chamam minério de ferro, que se transforma em aço e depois em alguma outra coisa que ajudou a produzir o meu box apertado.
A minha bolsa também oscila pra cima e pra baixo, enquanto eu ando bancando pose sobre aqueles saltos que machucam os meus pés, mas fazem parecer que eu tenho dois quilos a menos. É nessa mesma bolsa sem dinheiro que eu guardo o meu quadradinho rosa. Na verdade, ele não é quadrado. É uma bolinha, mas é rosa, tão comum e impotente que chamam de melhoral infantil. Aquele que eu tomo todas as manhas pra evitar uma insuportável dor de cabeça. Um dor que me cega, mas não impede de acertar em cheio o meu alvo, matando o meu semelhante, que é tão diferente de mim.
Mágica
Que bom, você também gosta de ler? Qual foi o último livro que leu?
Dom Casmurro.
Nossa, machadiano? Que moral. Um clássico.
Não, não, tava na faculdade.
Ah, sei.
Você lê pouco, mas pelo menos gosta de ir ao cinema. Qual foi mesmo o último filme que você viu?
Ghost.
Ahahaha. O Patrick Swayze agora já é fantasma mesmo. Tava revendo?
Não, não, na verdade, ando sem tempo para ir ao cinema.
Sei.
Então, você me disse que foi ao teatro. Branca de neve? Entendo, também tenho filho pequeno.
Não, não. Essa foi a última peça que eu vi, quando eu mesmo era pequeno.
Ah sei, você já disse que tem andado sem tempo. Mas escreve, que sei. Qual foi a última pérola que você escreveu?
Minhas férias.
Que bárbaro, você contribui para esses blogs de turismo, escrevendo dicas sobre lugares da moda? Descolado, hein?
Não, não, escrevi na época da escola, quando passava férias no interior. Casa dos avós, sabe como é....
Ah, sei. Entendo.
E você?
Eu que te perguntei tanto até agora? Olha, eu gosto mesmo é de brincar de mágica. Quer ver?
Faz, faz, faz.
Claro. Toma: plim, some. De-sa-pa-re-ce.
Que bom, você também gosta de ler? Qual foi o último livro que leu?
Dom Casmurro.
Nossa, machadiano? Que moral. Um clássico.
Não, não, tava na faculdade.
Ah, sei.
Você lê pouco, mas pelo menos gosta de ir ao cinema. Qual foi mesmo o último filme que você viu?
Ghost.
Ahahaha. O Patrick Swayze agora já é fantasma mesmo. Tava revendo?
Não, não, na verdade, ando sem tempo para ir ao cinema.
Sei.
Então, você me disse que foi ao teatro. Branca de neve? Entendo, também tenho filho pequeno.
Não, não. Essa foi a última peça que eu vi, quando eu mesmo era pequeno.
Ah sei, você já disse que tem andado sem tempo. Mas escreve, que sei. Qual foi a última pérola que você escreveu?
Minhas férias.
Que bárbaro, você contribui para esses blogs de turismo, escrevendo dicas sobre lugares da moda? Descolado, hein?
Não, não, escrevi na época da escola, quando passava férias no interior. Casa dos avós, sabe como é....
Ah, sei. Entendo.
E você?
Eu que te perguntei tanto até agora? Olha, eu gosto mesmo é de brincar de mágica. Quer ver?
Faz, faz, faz.
Claro. Toma: plim, some. De-sa-pa-re-ce.
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